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Homenagem póstuma: Inteligência Artificial recria soldados russos mortos para famílias

O que parece roteiro de Black Mirror é uma realidade na Rússia, onde a inteligência artificial (IA) está sendo usada de forma polêmica e emocionante: a recriação digital de soldados mortos na guerra contra a Ucrânia. Utilizando fotos, gravações de voz e modelos avançados de IA, familiares conseguem “reencontrar” seus entes queridos em vídeos curtos que simulam abraços, despedidas e caminhadas simbólicas.

O fenômeno ganhou grande visibilidade nas redes sociais russas, especialmente na plataforma VKontakte, através do projeto “Final Meeting” (Encontro Final). Criado por Anna Korableva inicialmente para editar vídeos de abraços entre versões de diferentes idades, o projeto mudou de foco após o pedido de uma mulher para recriar um encontro com seu irmão falecido em combate.

O vídeo viralizou, e desde então, o projeto recebe até 500 pedidos por dia de mães, esposas e parentes de soldados russos.

Como a IA “Revive” os Soldados

Os vídeos são produzidos com o auxílio de redes neurais e edições de imagem. As cenas comuns incluem o soldado falecido caminhando por escadas rumo ao céu, abraçando familiares ou beijando seus parceiros. O custo do serviço varia de US$ 20 a US$ 80, dependendo da duração e da inclusão de áudio personalizado, que também é gerado por IA a partir de gravações antigas.

Controvérsia e Ética

Embora muitos usuários enxerguem nos vídeos uma forma de terapia emocional e uma maneira de humanizar a perda, o projeto gera críticas intensas. Entre as opiniões contrárias, está a de que os vídeos romantizam o conflito, retratando a morte de soldados como uma ascensão ao céu.

Outros levantam questões éticas sobre a manipulação de imagens e vozes de pessoas falecidas, transformando o luto em um “produto digital”, em um debate semelhante ao recente comercial brasileiro que recriou Elis Regina com IA. Os criadores e defensores, no entanto, afirmam que o objetivo é consolar, e Korableva relata receber mensagens de gratidão de pessoas que se sentiram “mais leves” após ver os conteúdo.

A tendência de “ressurreição digital” não é exclusiva da Rússia. Na China, empresas oferecem serviços de criação de avatares animados de familiares falecidos. No Ocidente, cresce o uso de “deadbots”chatbots que simulam a personalidade e a voz de quem já morreu. A tecnologia de IA está, inegavelmente, transformando a maneira como a sociedade lida com o luto.